14 setembro 2006

MEMÓRIAS QUE FAZEM HISTÓRIA: ESCRITOS DE MULHERES NEGRAS NA LUTA POR EDUCAÇÃO ATRAVÉS DO JORNAL “A ALVORADA”

por Profª Drª Jacira Reis da Silva, Karine de Freitas Mattes e Luciane Kmentt da Silva, da Universidade Federal de Pelotas/RS

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Jacira Reis da Silva

Inúmeros estudos são unânimes em afirmar que durante longo período, na história do nosso país, a escolarização dos negros era proibida. Embora, desde a Constituição Imperial de 1823, tenha se legislado a favor do ensino gratuito a todos, na prática ele se reduzia aos filhos dos homens livres.

A Câmara Municipal de Pelotas registrou, em 11 de setembro de 1886, na ata nº 127, uma Portaria da Presidência da Província, reclamando providências sobre o procedimento de alguns professores dessa cidade, que se recusam matricular, em suas aulas, meninos de cor preta. A preocupação do governo da Província em recomendar que não sejam recusadas matrículas de “meninos” de cor preta evidencia a exclusão das mulheres das salas de aulas, naquela época.

Os estudos na área da história da educação apontam que no período colonial, praticamente, inexistia qualquer preocupação com a educação feminina. Bastava às mulheres que elas soubessem realizar as prendas domésticas: cozinhar, bordar, fazer doces e tocar piano.

Guacira Louro, no artigo Mulheres na sala de aula aponta que para a população de origem africana, a escravidão significava uma negação do acesso a qualquer forma de escolarização. A educação das crianças negras se dava na violência do trabalho e nas formas de luta pela sobrevivência. As sucessivas leis, que foram lentamente afrouxando os laços do escravismo, não trouxeram, como conseqüência direta ou imediata, oportunidade de ensino para os negros. São registradas como de caráter excepcional e de cunho filantrópico as iniciativas que propunham a aceitação de crianças negras em escolas ou classes isoladas - o que vai ocorrer no final do século. (LOURO, 1997, p.445)

Abbade e Souza (1996) falam sobre uma dessas iniciativas ao relatarem a historia do Asilo Sagrada Família. Fundado por Madre Paulina, abrigou as vinte primeiras meninas negras para freqüentarem o curso preliminar. [...] Essas escolas começaram a ser criadas em função da lei de emancipação de 28 de setembro de 1871 que determina entre outras coisas aos senhores de escravos, que mandem ensinar a ler e escrever a todas as crianças. Em todo Império, porém, não existem talvez nem 10 casas onde essa imposição seja atendida. (ABBADE, SOUZA, 1996, p.2).

Em Pelotas, também foram criadas escolas que tinham por objetivo atender as meninas negras pobres. Entre elas, ainda em funcionamento, existe o Instituto São Benedito. Este Instituto foi fundado em 06 de fevereiro de 1901, por Luciana de Araújo, mais conhecida como ‘Mãe Preta’. A manutenção da casa era feita por donativos angariados pela própria Luciana, recolhidos em peregrinação pelas ruas da cidade. De 1901 até 1912, as aulas eram ministradas por mulheres negras, voluntárias que ensinavam às meninas carentes.

Como se pode perceber por esse breve resgate histórico a comunidade negra em geral e as mulheres negras, em particular, tiveram grandes dificuldades de acesso à escola. Ainda hoje, estudos apontam elevados índices de exclusão, evasão e repetência, que afetam de modo particular as crianças negras brasileiras. Por outro lado, sabe-se que essa dificuldade de acesso e permanência na instituição escolar foi um dos elementos que mobilizou a comunidade negra em prol da escolarização de seus filhos.

O presente artigo apresenta reflexões sobre essa luta tendo como suporte os escritos de mulheres negras, resgatados através de pesquisa desenvolvida na Biblioteca Pública Pelotense, tendo como fonte documental o Jornal A Alvorada.

A escolha desta fonte de pesquisa decorre do conhecimento sobre o importante papel que a imprensa exerceu como veículo de denúncia da situação social dos negros e como incentivadora da organização da comunidade negra em prol da educação. Como diz Bastide (1959), a imprensa negra teve finalidade e utilidade múltiplas: “foi órgão de reivindicação, solidariedade e de educação que ajudava a formar líderes, permitia comunicação entre a comunidade, revelava talentos literários” (p.39).

Em Pelotas, a organização e circulação do jornal “A Alvorada” revela esta finalidade. A existência deste jornal evidencia a iniciativa e liderança de um grupo negro que foi capaz de elaborar e colocar em circulação o seu discurso na luta por educação. Além disso, seu significado torna-se maior, na medida em que ele é espaço de expressão de vozes negras femininas num período onde o espaço público era predominantemente ocupado por homens brancos.

Compartilhando do mesmo esforço dos historiadores que se preocupam em resgatar a história de grupos historicamente silenciados e do reconhecimento que este esforço favoreceu a construção de uma história social das mulheres (PERROT, 1992), o presente trabalho procura evidenciar o papel das mulheres negras como sujeitos da história. Perceber o sentido que essa comunidade atribuía à educação; incluir na História da Educação, a história da resistência negra e o papel das mulheres como construtoras desta história, são os principais objetivos deste trabalho.

Metodologicamente tomamos como suporte teórico os princípios gerais da análise de conteúdo (BARDIN, 1992; ORLANDI, 1987) seguindo as três etapas básicas deste método, ou seja: pré-análise, descrição analítica e interpretação inferencial.

Na primeira etapa, que constitui a fase de reunião de informações e coleta dos dados, desenvolvemos a catalogação, fichamento dos artigos que tratam sobre educação. Após uma primeira leitura do material, que Bardin denomina de “flutuante”, identificamos e, posteriormente, fotografamos os artigos escritos por mulheres.

Esta pré-análise permitiu definir a abrangência da pesquisa que foi delimitada pela possibilidade de acesso à fonte documental que utilizamos. Neste aspecto, dispomos para consulta apenas dos exemplares do jornal “A Alvorada” que constituem o acervo da Biblioteca Pública Pelotense, composto pelos jornais que foram editados entre 1931 e 1934 e entre 1946 e 1957, perfazendo em período de 16 anos de circulação.

Nesta fase também procedemos a uma maior especificação do campo da pesquisa (artigos sobre educação) e do corpus da investigação (artigos escritos por mulheres negras)
Dentre os 575 artigos referentes ao tema educação, 304 foram identificados como escritos por mulheres, o que demonstra a preocupação da comunidade negra com sua situação educacional e, principalmente a participação das mulheres nesta luta.

A maior incidência de escritos femininos se concentra nos anos de 1933-34 e de 1947 até1950. Pode-se inferir, pelo contexto das referidas décadas que esta participação das mulheres no jornal foi influenciada, na década de 30, pela atuação da Frente Negra, nas décadas de 40 e 50 pelos primeiros movimentos sócio-culturais e econômicas que foram gradativamente modificando as concepções sobre a participação da mulher na sociedade e no mundo do trabalho, como a campanha pelo voto da mulher, por exemplo.

Na segunda fase - a da descrição analítica - buscamos perceber o “conteúdo manifesto” dos artigos divulgados.

Dentre os principais temas abordados pudemos destacar: o papel da mulher e da prudência na educação dos filhos; a importância da mulher não esquecer as ciências domésticas; educação sexual; a mudança de comportamento feminino para a valorização da raça; denúncias e “conselhos” sobre os malefícios do álcool, fumo e jogo; denúncias e paralelos entre a mulher negra da senzala e a mulher negra dos dias atuais: continuação da servidão; a educação física, intelectual e moral como meio de alcance da liberdade da nação; a educação como forma de ascensão social, econômica e emancipação da raça; a educação como forma de emancipação da mulher negra; desigualdade social; valorização da escola e dos professores; a importância e o prazer da leitura; valorização do trabalho realizado pela Frente Negra Pelotense; a importância da mulher negra elevar-se com união e cultura; a luta como fator de alcance à educação e o orgulho da raça; a importância da mulher negra saber vestir-se; incentivo à educação através de notícias dos negros que obtiveram sucessos profissionais; o progresso da raça através do auxílio dos governantes; a importância da mulher estar inserida no mercado de trabalho; a necessidade de sindicalização da mulher; denúncias sobre a preocupação da mulher com a moda e o seu desinteresse com as novas tendências políticas e sociais; divulgação e incentivo ao Comitê Feminino contra a guerra, em defesa da paz universal, cultura e humanidade; poesias e contos diversos; notícias sociais sobre: carnaval, festas familiares, formaturas, divulgação de fotos e entrevistas com rainhas de clubes sociais e negros artistas, entre outras. As mulheres negras também se ocupavam em reproduzir e comentar artigos de outros autores, notícias de outros jornais e divulgar campanhas em prol da saúde como, por exemplo, a necessidade da mulher cuidar de sua beleza e advertência sobre o câncer. Também divulgavam páginas literárias com contos e lendas nacionais. Preocupavam-se, ainda com questões relacionadas aos sentimentos femininos. A felicidade, a saudade, a morte, o sofrimento, o tempo, a beleza, o amor, a maternidade, o desengano, a esperança, são temas recorrentes, especialmente nas poesias e contos que escreviam ou reproduziam. Havia também uma coluna denominada “Conversa entre Comadres”, onde o principal assunto das comadres, Eudoxia e Micaela, eram: “fofocas da cidade.”.

Na fase da interpretação inferencial, tentarmos desvendar o “conteúdo latente” dos textos e, desse modo, procurar captar os sentidos por eles expressos. Nesta etapa, além dos textos do jornal, nos embasamos em estudos e documentos que oferecem referencial para analisar as relações negro-mulher-educação, no Brasil, tais como trabalhos de: Santos (2003); Silva (2000); Gonçalves e Silva (1998); Del Priori (1997); Heller (1992); Figueira (1991); Hasenbalg (1990); Gonçalves (1987); Pinto (1987); Cunha Junior (1979), entre outros.

No processo de estudo conseguimos perceber que a luta do negro por educação abrangeu tanto o campo da educação formal, como não formal e que os escritos das mulheres se preocupavam com esses dois campos.

No primeiro aspecto destaca-se a atuação da Frente Negra Pelotense, especialmente na década de 30, reivindicando instrução através do ingresso e permanência na escola. Neste sentido ela foi a grande incentivadora de campanhas pró-alfabetização, instrução e educação dos negros. É durante este período que se pode observar a presença de um maior número de artigos sobre educação, no jornal “A Alvorada”, bem como dos artigos femininos.

A partir de 1934, observa-se a presença de uma página feminina, onde se expressa o olhar da mulher em relação à sociedade da época. Nesta página estão presentes vários estilos de textos, tais como: poesias, notas sociais, artigos informativos, entre outros.

A criação da Frente Negrina, organização das mulheres em defesa da educação para toda a população negra, é uma das impulsionadoras da participação das mulheres como articulistas nesta seção do jornal, como podemos verificar pelo apelo colocado naquele ano:

Aceitam-se colaboradores para esta secção. Faz-se questão que sejam produzidas pelo elemento feminino. Assuntos sempre de interesse para o progresso intelectual, educacional e cultura da mulher negra. (A ALVORADA, 1934, p. 4)
Os artigos escritos por estas mulheres, portanto, continham forte chamamento à comunidade negra para instruir-se e elevar o seu nível educacional e relacionavam a educação de modo geral e a alfabetização, em particular, com a possibilidade de maior respeito e valorização.

Educae-vos e verás como desaparece essa nuvem densa de ignorância que vos venda os olhos, privando-vos de enchergarem o que é bello, lindo e maravilhoso, a EDUCAÇÃO. Educando-te educarás a ti e a nossa sociedade. (ANTONIETTA G. AVILLA, A ALVORADA, 1932, nº 57, p.3)

A educação e a alphabetização é a alma da nacionalidade! Educae-vos meus queridos irmãos e irmãzinhas e verás como sereis respeitadas e valorizadas. A educação te proporcionará horas felizes! A educação faz a alegria e a felicidade no lar. (Id.Ibdi)

No âmbito da educação não formal se desenvolveram, através do jornal, campanhas educacionais exortando a comunidade negra a manter um padrão de comportamento social diferenciado, evitando equiparar-se àquilo que era considerado inapropriado aos padrões da época, como forma de diminuir ou evitar a discriminação.

Os artigos das mulheres, em geral, refletiam o lugar social que os negros ocupavam e buscavam superar. Neste aspecto freqüentemente manifestavam preocupações com o comportamento em público, o modo de vestirem-se, os cuidados com os vícios.

É neste sentido que se manifesta Antonietta G. Avilla:
Ora, nós que já passamos pelo desgosto de sermos discriminados por termos a pelle preta (afixar de que isso não passa de ignorância) se não praticarmos bons actos maiores desgostos teremos a passar e mais tétrico será nosso modo de viver. Por isso quanta falta de educação e civilização mostramos, quando em um recinto social qualquer uma pessoa tem que falar aos presentes e ouvem-se de ambos os sexos gargalhadas estridentes, que tanto nos deprimem. Não se envergonham de uma pessoa da raça? Que não dirão de nossos costumes, de nossa terra? (A ALVORADA, 1932, nº 15, p.1)

Também uma autora que utiliza o pseudônimo de Última Romântica, exorta os jovens a evitarem vícios procurando instruir-se:
Meus amiguinhos, perdoai-me se com este meu despretencioso, porem sincero artiguetesinho, não ser-vos de toda agradável. Mas eu não posso deixar de falar diante do perigo, em que vejo vossas vidas. Vejo que o vício vos dominam. Vós que sois na maioria filhos de pais honrados, não deveis seguir este caminho vicioso. Deveis procurar os livros e vos instruir e educar. (ÚLTIMA ROMÂNTICA, A ALVORADA, 1934, nº 11, p.1)

O cunho moralista que impregnava as críticas ao comportamento da comunidade negra também estava presente nas colunas de “fofocas”. Como salienta Santos (2003), “estas colunas estavam diretamente relacionadas com o dia-a-dia daquela comunidade, comentavam as atitudes “imorais” das pessoas e situações que lhes eram próximas no cotidiano” (p.101).

Pudemos perceber este aspecto na “Conversa entre Comadres”:
_ Minha nossa senhora! Será que... que é uma ilusão de ótica? A minha comadre Eudóxia. Tanto tempo que não a via!
_ Olá minha querida Micaela! Até parece que estou sonhando...
_ Mas e as novidades? E a L. comadre o que me contas dela?
_ A não ser os seus modos fortes, com gritinhos, etc, pelas ruas, o resto tudo é “mar de rosas”.
_ Tem certeza eu é mesmo “mar de rosas?”.
_ Mais ou menos. E a melhor, comadre, sabe que na B. de Butuí tem três garotas que vão se sentar no portal das casas vizinhas e se danam a chamar os jovens com assoviosinhos “cariocas?”.
_ Não, Eudóxia, esta eu não sabia.
Mas sei daquela garota que anda de namoro com um craque do Brasil e que é da mesma zona.
_ Esta eu sei, e sei até que comentam certos treinos extras entre eles lá pelo gramado do Grêmio... (EUDÓXIA E MICAELA, A ALVORADA, 1947, nº 38, p. 5)

-_ Salve ela! Dá cá um abraço, comadre!
_ Ué!!! Que alegria são essas comadre? O que tens de novo para me contar?
_ Quase nada. Não tenho saído ultimamente com esses dias frios tenho me recolhido cedo.
_ Eu também tenho feito o mesmo, com exceção de quarta-feira que acomadre Aniceta esteve lá em casa e me contou cada coisa!...
_ Então conta logo comadre.
_ Bem, comadre, tu conheces aquela garota muito conhecida na nossa sociedade que mora na rua Gonçalves Chaves, nas imediações do antigo Colégio Félix da Cunha?
_ Ora, ora, senão vou conhecer.
_ Pois ela tem um namorado que até as 11 h da noite agente o encontra parado na porta. Quem por curiosidade tenta observá-los perde tempo, pois só se nota uma pessoa na porta... (EUDÓXIA E MICAELA, A ALVORADA, 1947, nº 43, p. 4)
Alguns artigos abordavam a questão social sobre a posição da mulher negra no mercado de trabalho da época relacionando-a com as dificuldades de escolarização.
Doloroso é falarmos na questão da educação feminina em nosso meio, tal o descaso de tantos pais e tantas mães, para com esta máxima necessidade. Doloroso porque as nossas irmãs de raça desde que nascem, começam a aprender ou a lavar vidros e panelas ou a usar pó de arroz e ruge. Aquelas se criam no serviço de coperagem e ficam eternamente crentes que negrinhas como elas nasceram para ser ‘tias velhas da cria do douto fulano.’ Raríssimas são as nossas irmãs de raça que saiba ler e escrever corretamente, lavar, costurar, bordar, recitar, cantar (ou tocar por música), fazer contas, falar sobre a raça, política ou assunto nacional. Não devemos cultuar o nosso estado de servilismo. Progredir é um dever. (SUETANIA, A ALVORADA, 1934, p. 5)

As mulheres também denunciavam, em sua página, as discriminações e preconceitos na escola, como indica o excerto abaixo transcrito:
[...] Os mestres por sua vez devem tratar os alunos com bondade, carinho e moderação e não fazer distinção entre cores e posses, porque isto não é culpa das pessoas que não dispõem de meios para ocorrer ao luxo, mas com seu trabalho honrado trilham um caminho honesto. (D. MARIA LUIZA TORRES, A ALVORADA, 1934, p. 2)

Também faz parte da estratégia de valorização dos negros a publicação de notícias sobre aqueles negros e negras que completavam sua escolarização ou desempenhavam o ofício de professores como podemos ver a seguir:
Com toda solenidade realizou-se a 15 do corrente a cerimônia de colação de grau no Teatro Guarany, às 21 horas, das novas professoras formadas pela escola Normal Assis Brasil. Entre as novas professoras estão nossas gentis conterrâneas senhorinhas Terezinha de Jesus R. da Silva, Maria Helena Brasil Sias, Giselda Iponema e Ilma da Silva, todas pertencentes ao quadro social do Clube Cultural Fica Aí. (A ALVORADA, 24/12/1934, p. 5).

Desperta negro do teu sono de antanho. Não és inferior, como prova tua capacidade mental. Temos em Pelotas os grandes professores Francisco Paula Alves e Joaquim Alves da Fonseca; Dr. Ari Lopes Machado, bacharelando em Ciências Comerciais e pintor de grandes recursos e futura glória nacional; professora Faustina Lessa Pires; Ogenia Cupertino; Luiza Ferreira, a distinta aluna do nosso Conservatório de Música; a jovem Mariana Lopes, normalista na Escola Normal da Capital e outras mentalidades que no momento não me recordo. [...] Acorda, ergue a cabeça, destolda teu cérebro que ainda está encoberto por nebulosas. (A ALVORADA, 7/01/1934, p. 3)

Os artigos citados acima puderam ser identificados como escritos femininos porque, mesmo sem o registro da autoria, fazem parte da página feminina, do jornal. Outros artigos, embora sem o nome das autoras, também puderam ser identificados como vozes das mulheres porque ao final havia esta expressão como identificação. É o caso, por exemplo, dos dois pequenos artigos que seguem:
Avante.
Estudar é elevar-se, é glorificar-se. Por meio do estudo é que se alcança nomes importantes e personalidades heróicas. Devemos nos divertir mas para isto devemos também estudar afim de alegrar nosso pais e engrandecer a nossa gloriosa e amada raça. Aí está porque devemos nos esforçar, para que unidos sejamos fortes e possamos fazer o que até hoje depois de 45 anos de emancipação ninguém fez: a campanha Pró-Educação. A autora (A ALVORADA, 14/01/1934, p. 6).

Por que toda mulher negra não procura elevar-se?
Por que a maioria vive em corredores, num ambiente nada higiênico, onde campeia a ignorância? A briga, a bebida, os maus tratos, terminando muitas vezes na delegacia é quase sempre o final dessas tragédias diárias em que o atrazo mental da nossa raça faz culminar. A vida é de sacrifícios!

Mas o sacrifício dos sacrifícios se exige: trabalha pela educação do vosso filho, porque sem saber nada podeis conseguir dele. Fazei-o estudar porque sem saber a instrução um não poderá orgulhar-se de dizer: o meu filho é bem educado. Só educando e instruindo podereis proferir aquelas palavras com orgulho. A educação é parte integrante de nossa felicidade, assim como o alimento mantém o corpo com a vida, assim nos educando, introduzimo-nos na vida social seguro de nosso papel perante os que nos rodeiam. Para a salvação de nosso problema que e problema da nossa raça duas cousas se exige: união e cultura. A Autora. (A ALVORADA, 07/01/1934, p. 5)
Também existem várias as poesias escritas pelas mulheres. O discurso poético dessas mulheres é rico em representações e expressões do imaginário que nos revelaram outros sentidos em suas memórias.

A poesia que segue parece manifestar a tristeza de uma mulher que é preterida por seu amado, diante da militância política dele.

Cada dia mais sinto o que representas para mim
Cada dia mais gosto mais e mais de ti,
Cada dia mais a felicidade mais sorri,
Cada dia mais, mais me entristece não teres como eu,
Um Deus que te proteja, um credo que te guie
e uma pátria cujo regime político te satisfaça.
Não devias mais ser socialista, ateísta, esquerdista
Mas tão somente artista e meu cada vez mais.
(LAUDETE FERNANDES, A ALVORADA, 1953, nº 26, p. 3)

Em síntese, podemos dizer que, através do jornal “A Alvorada” pudemos resgatar a memória histórica de um grupo datado e situado – as mulheres negras que viviam em Pelotas no período em que aquele semanário circulou na cidade – e, através desse resgate, perceber o grande esforço de organização da comunidade negra em geral e dessas mulheres negras, em particular, em prol da educação e da escolarização de seus filhos e filhas. Nessa luta salienta-se a importância que essa comunidade atribuía à educação como veículo de reconhecimento, valorização, e forma de preservar determinados valores morais.

A erradicação do analfabetismo, o acesso à instrução, enfim, a conquista da escolarização, eram vistos como meios para conquistar outros espaços no campo do trabalho, possibilitando ascensão econômica e social, em especial para as mulheres.
Além disso, o processo vivenciado reforçou o que já dissemos sobre a importância da imprensa negra, no campo da educação e de seu relevante papel na revelação de talentos literários, reivindicação de direito, formação de lideranças e construção de uma rede de solidariedade e comunicação entre a comunidade.

Por fim, resta evidenciar que o processo desta pesquisa nos indicou um fértil campo para futuros estudos, bem como reafirmando a importância do resgate da história dos grupos marginalizados através de documentos que expressam a voz desses grupos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
A Alvorada. Jornal. (1931-1956). Museu da Biblioteca Pública Pelotense.
ABBADE, Marinel e SOUZA Cyntia. Escolarização de Meninas Negras – um caso raro na história da educação paulista, no início do século. (Trabalho apresentado no IIIº Congresso Iberoamericano de História de la Educacion Latinoamericana. Caracas/Venezuela, 1996, p. 2 (mimeo).
BARDIN, Laurence. Análise de discurso, 1992.
BASTIDE, Roger e FERNANDES, Florestam. Brancos e Negros em São Paulo. Ensaio sociológico sobre aspectos da formação, manifestações atuais e efeitos do preconceito de cor. São Paulo: Cia.ed. Nacional, 1959.
CUNHA JUNIOR, Henrique. A criança (negra) e a educação. Cadernos de Pesquisa, FCC, São Paulo, n. 31, 1979.
FIGUEIRA, V. M. O preconceito racial na escola. NASCIMENTO, Elisa Larkim (org.) A África na escola. Brasília, Senado Federal, Gabinete do Senador Abdias do Nascimento, 1991.
GONÇALVES E SILVA, Petronilha Beatriz. Chegou a hora de darmos a luz a nós mesmas – situando-nos enquanto mulheres negras. Cadernos do Cedes, n.45, ps. 7-23, julho/1998
GONÇALVES, Luis Alberto Oliveira. Reflexões sobre a particularidade cultural na educação de crianças negras. Cadernos de Pesquisa, FCC, São Paulo, n. 63 p.27-30, nov., 1987.
HASENBALG, Carlos; SILVA, Nelson do Valle. Raça e oportunidades educacionais no Brasil. Cadernos de Pesquisa. FCC, São Paulo, n. 73, p. 5-12, maio. 1990
HELLER, Agnes. O cotidiano e a História. 4. ed.São Paulo: Paz e Terra, 1992
LOURO, Guacira. Mulheres na sala de aula. In: DEL PRIORI, Mary. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, p. 445.
MELLO, Marcos Antônio Lirio, Memória e Negritude, Cultura, Identidade e Cidadania na Imprensa Negra em Pelotas. Pelotas: UFPel, 1992. Projeto de Pesquisa (mimeo)
ORLANDI, Eni Pulcinelli. Discurso e leitura. São Paulo: Cortez, 1987.
PERROT, Michele. Os excluídos da História. Operário, mulheres, prisioneiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
PINTO, Regina Pahim. A educação do negro: uma revisão bibliográfica. In Cadernos de Pesquisa, São Paulo: Fundação Carlos Chagas, nº 62, ago, 1987, p 3 – 34.
SANTOS, José Antônio dos. Raiou a Alvorada: intelectuais negros na Imprensa, Pelotas (1907-1957). Pelotas: Editora Gráfica Universitária, 2003.
SILVA, Jacira Reis da. Mulheres caladas: trajetórias de professoras negras, em Pelotas: produção/circulação de representações sobre os negros, na escola. (Tese de Doutorado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: UFRGS, 2000.

2 comentários:

Sandra disse...

Deliciosa leitura deste artigo. Sabemos que os veículos de informação são potencialmente fantásticos pela sua diversidade de possibilidades - agente, canal, etc. - de virem a dinamizar as relações dos públicos a que se destinam. A pesquisa, sonho meu ou sonho nosso, bem que poderia ser ampliada para todos os rincões deste país. Que adorável saber o quanto as mulheres negras desenvolveram de estratégias e ações para ampliarem as possibilidades do coletivo. Outra questão, vocês publicaram esta pesquisa completa no formato livro? Sou da área de comunicação e este trabalho me interessa em muito, e também o contato com a equipe e coordenadora. Obrigada e Parabéns pela pesquisa.

chandra disse...

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