07 outubro 2006

INTELECTUAIS NEGROS E IMPRENSA

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por José Antônio dos Santos, licenciado e bacharel em História pela UFRGS, mestre com a dissertação “Raiou A Alvorada: intelectuais negros e imprensa, Pelotas (1907-1957)”, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense, Niterói - RJ.

O jornal A Alvorada foi fundado por operários negros na cidade de Pelotas em 1907. Direcionado para a comunidade negra daquela cidade e região, circulou, com pequenas interrupções, até 1965, o que caracteriza esse periódico da imprensa negra brasileira como o de maior longevidade no país. Segundo seus fundadores, o semanário obedecia um programa - lutar contra a discriminação racial e se posicionar em defesa dos trabalhadores.

O programa, definido quando da fundação do jornal, foi implementado por meio de artigos sobre saúde, lazer, educação, comportamento, moradia e legislação trabalhista, que buscavam reivindicar direitos, informar e educar os seus irmãos de raça. Também com a organização de cursos de alfabetização e a fundação de sindicatos, sociedades beneficentes, teatrais, musicais, culturais, carnavalescas, esportivas e bailantes. O objetivo era formar uma rede de pessoas e idéias que tornasse possível superar os limites sociais e raciais estabelecidos naquela sociedade. Rede que era mantida, não sem problemas, por laços de parentesco, interesses políticos e solidariedades, contra as adversidades sociais - racismo, analfabetismo, baixa estima e falta de condições materiais de todo tipo. O que delimitava os contornos daquela comunidade negra, frente ao restante da sociedade pelotense, principalmente, até a primeira metade do século passado.

Na medida em que os negros tinham seus espaços de sociabilidade segregados na cidade de Pelotas, eram proibidos de entrarem em determinados cafés, teatros, sociedades e escolas, fundaram seus próprios clubes bailantes, culturais e recreativos. Por exemplo, a Liga José do Patrocínio era uma federação de times de futebol, criada em 1919, para congregar as equipes da comunidade negra que não podiam participar da Liga de Futebol Rio Branco, formada exclusivamente por times de brancos. Também a Frente Negra Pelotense, fundada em 1933 nos moldes da Frente Negra Brasileira (São Paulo, 1931-1937), tinha como principal objetivo, a instrução dos irmãos de cor. As lideranças negras entendiam que a educação era uma das principais formas de inserção no mercado de trabalho, ascensão social e garantia de direitos. Uma vez que tinham acesso à educação, bastante dificultado naquela cidade e, conscientes de que, a emancipação dos negros tem que ser obra dos próprios negros, fundaram suas instâncias de combate ao racismo e de representação política.

Destacamos os nomes de quatro fundadores do A Alvorada: os irmãos Juvenal e Durval Morena Penny, donos do periódico, e Antonio Baobab e Rodolfo Xavier, redatores do jornal, definidos como intelectuais orgânicos da comunidade negra pelotense. Todos eles se autodenominavam – negros - o que é amplamente atestado em depoimentos, reportagens e artigos assinados, condição também comprovada por fotos divulgadas em primeira página nas datas de aniversário do jornal. Devemos considerar, no entanto, que, muito embora houvesse a consciência de negritude daqueles indivíduos, muitas vezes a caracterização fenotípica da comunidade negra em relação a eles era variada, algumas vezes eram caracterizados como mulatos, morenos, híbridos e, mesmo negros. Todos eles, além da autodenominação de negros e o parentesco, os dois primeiros eram irmãos e os dois últimos também, ainda tinham em comum as vidas marcadas pela busca da superação das dificuldades sociais e raciais vividas naquela cidade (1).

Ao que tudo indica Antonio Baobab foi o inspirador para a fundação do jornal e para a luta empreendida por eles a favor da alfabetização, contra a discriminação racial e por melhores condições de sobrevivência para os operários pelotenses. Antonio que nascera escravo, comprou a liberdade no início de 1880 e trocou o segundo nome de Oliveira para Baobab no início da década de noventa, em substituição ao antigo sobrenome que fazia referência a um passado nada olvidável, pois, conforme sabemos, o escravo levava o nome do seu dono. Quando da troca do nome, a referência se fez explícita ao continente de origem de sua família, onde o baobá é árvore sagrada, gigantesca, que reina soberana nas savanas da África. Demonstra uma certa consciência da sua ascendência africana e a necessidade de se voltar a ela para obter forças e lutar contra o preconceito e a pobreza. A troca de nome deu-se com o amadurecimento intelectual de Baobab, que se alfabetizou logo após ter assumido a condição de livre, pagando professores particulares e estudando à noite no curso de instrução primária da Biblioteca Pública Pelotense. Aos vinte e cinco anos, juntamente com seu irmão Rodolfo Xavier, que tinha dez anos, foram considerados, em 1883, dois dos sete alunos mais assíduos e adiantados daquela instituição de ensino, onde receberam menção honrosa (2).

Xavier foi colega de aula de Juvenal e Durval Morena Penny na Biblioteca Pública Pelotense (BPP) que, fundada em 1875, abrigou nas suas dependências cursos noturnos de alfabetização a partir de 1877 até a década de cinqüenta do século XX. A iniciativa da elite pelotense de criar os cursos noturnos de instrução primária, direcionada aos homens adultos e meninos pobres, tinha “o intuito de disciplinar, de incutir normas e valores referentes à necessidade do trabalho como forma de combater o ócio e a ‘vagabundagem’” (3). Esta iniciativa não foi um caso único na cidade de Pelotas, existiam muitos professores particulares e algumas iniciativas privadas, como o Club Abolicionista em 1882, em que a elite pelotense assumia o papel de iluminar, guiar, conduzir os destinos dos alunos. Na BPP foram todos classificados, hierarquizados, separados em grupos, “onde os brancos eram considerados melhores que os negros, os imigrantes melhores que os nacionais e os adultos melhores que os menores” (4). Apesar da classificação e separação por idade, nacionalidade, etnia e gênero, as aulas noturnas eram um espaço privilegiado. Por um lado, para atingir o projeto da elite de moralizar parte do povo (5)(imigrantes, operários e pobres em geral), incutia-lhes o amor ao trabalho e aos estudos, buscando atingir o progresso da cidade. Por outro, porque através do domínio do código escrito – saber ler e escrever – possibilitou que Baobab, Xavier e os irmãos Penny pudessem decifrar as suas histórias de vida e reconhecer nessas alguns pontos em comum. Ou seja, eram operários, negros e pobres e como tais foram hierarquizados e segregados na escola da Biblioteca reflexo das condições econômico-sociais e étnicas verificadas na cidade. Talvez este habitus (6) social comum entre eles, definido em boa parte pela rígida hierarquia das aulas noturnas na Biblioteca, assumisse o caráter de estruturas que, estruturadas pela elite pelotense, se tornaram estruturantes de uma consciência étnica possível naquele momento. O que iria definir-lhes muito do papel que desempenhariam como líderes da comunidade negra, tendo como certo que não foram eles receptáculos vazios de experiências anteriores. Experiências estas que se estendiam ao período da escravidão, onde já haviam adquirido relativa consciência das causas da situação precária em que se encontrava a maioria das pessoas da sua raça, bem como tornou possível assumirem posição de liderança naquela sociedade.

Baobab era o mais velho de todos eles, com trajetória peculiar, de escravo a líder operário, se tornaria nome respeitado na cidade. Em 1887 associou-se ao Clube Republicano, participou da diretoria de várias associações de trabalhadores junto com seu irmão Rodolfo Xavier, como S. B. Feliz Esperança (1880-1917) e Fraternidade Artística (1881-1911). Além disso, foram membros da Liga Operária no início desta entidade, formada por operários e patrões em 1890, da qual saem para fundarem a União Operária Internacional em 1895 (7), “composta de chapeleiros, curtumeiros, pedreiros, carpinteiros, ferreiros, calceteiros e outras classes” (8). A União Operária Internacional da qual Baobab foi presidente e Xavier secretário foi fundada para “combater a ‘Liga Operária’ que, segundo o último, era uma ‘Liga’ de patrões” (9). Fundam ainda o Centro Operário 1o. de Maio em 1899, formado só por chapeleiros, profissão que Baobab exercia na fábrica Bammann & Maia (10) e Xavier na Fábrica de Chapéus Cordeiro Viener da família Rheingantz (11). Em 1893 Baobab participou da equipe de redação do jornal operário Democracia Social, neste mesmo ano fez parte de comissão de greve como representante dos chapeleiros. Esta greve ajudaria a caracterizar Pelotas como o “berço do sindicalismo gaúcho” (12), o que nos dá uma idéia do intenso debate e aprendizado de política e engajamento em que viveram aquelas pessoas.

Acreditamos que Antonio Baobab, mais velho que os demais, com toda a experiência acumulada na liderança operária, professor e líder da comunidade negra, onde ocupou cargo na diretoria do centenário Asilo de Órfãos São Benedito, foi o iniciador e principal mentor da criação do jornal A Alvorada. Segundo Xavier, no último artigo citado, era “Inteligência lúcida e trabalhada por si própria, autodidata, bastante orientou os primeiros passos da ‘Alvorada’. A morte o arrebatou quando dele muito se esperava”. Baobab, como os demais, exercia dupla militância – líder dos operários e da comunidade negra pelotense – posição que ocupou até morrer. Meses após a fundação do jornal, Baobab se foi, mas a semente que plantou, frutificou por quase sessenta anos.

NOTAS
(1) Antonio Baobab e Rodolfo Xavier, segundo memória do último, eram descendentes, por parte de mãe, de escravo moçambique. Seu avô havia fugido da charqueada onde era cativo para lutar na Guerra dos Farrapos (1835-1845), talvez em busca da liberdade prometida pelos rebeldes farrapos aos escravos que permanecessem nas infantarias pé no chão até o final do armistício.
(2) Correio Mercantil, Pelotas, 10.04.1884
(3)PERES, Eliane T. “Templo de Luz”: os cursos noturnos masculinos de instrução primária da Biblioteca Pública Pelotense, 1875-1915. Porto Alegre, 1995. Dissertação de mestrado em Educação, FACED/UFRGS, p. 51
(4) PERES, Ibid. p. 141
(5) Projeto que permanecia na década de vinte, conforme podemos ver no anúncio de palestra inaugural da série “Palestra com o povo”, que seria proferida por Fernando Luis Osório, organizada pela BPP. Ilustração Pelotense. 16.06.1920 Ver também, anúncio da fundação em Pelotas da Associação Brasileira de Educação, cujo Presidente do Conselho Diretor era Joaquim Luis Osório, outro membro da família Osório, representante máximo da elite pelotense. Ilustração Pelotense. 01.12.26
(6) O conceito de habitus, definido como “sistema de disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias características de um grupo de agentes”, foi usado para dar conta do grupo de pessoas que se aglutinou ao redor do jornal A Alvorada, no sentido de verificarmos quais aspectos tinham em comum. BOURDIEU, Pierre. Cap. 4 Campo do poder, campo intelectual e habitus de classe. In: A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1992. p. 191
(7) Cf. LONER, Beatriz Ana. Classe operária: mobilização e organização em Pelotas, 1888-1937. Porto Alegre, Tese de doutorado em Sociologia, UFRGS, 1999. anexo B, p. 575 A fundação da União Operária Internacional foi em 12.12.1897, há que se considerar que Xavier estava com cerca de setenta anos de idade em 1949, sua memória podia falhar.
(8) “1o. de Maio”. A Alvorada, 05.05.1949 Artigo assinado por Rodolfo Xavier que faz uma retrospectiva da participação dele e de seu irmão no movimento operário pelotense, publicado no dia do aniversário do jornal.
(9) “Situação Operária III”. Rodolfo Xavier. A Alvorada, 09.09.34
(10) LONER, op. cit., 1999, p. 62 A autora considera a Bammann & Maia, uma das mais importantes fábricas de chapéus de Pelotas, naquela época tinha 30 operários.
(11) A família Rheingantz é considerada pela historiografia gaúcha como os pioneiros da indústria no Estado, fundaram em 1874 a manufatura têxtil de Rheingantz & Cia. em Rio Grande.
(12) MARÇAL, João Batista. Primeiras lutas operárias no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Ed. Globo, 1985. p. 109 Segundo o autor, entre 1890 e 1893, foram realizadas em Pelotas as três primeiras greves operárias ocorridas no Estado, mobilização trabalhista que vai se estender até 1898, ano em que acontece a quarta greve na cidade.

Texto originalmente publicado no Jornal Ìrohìn (www.irohin.org.br) e enviado pelo autor para o Blog NÓS SOMOS MÍDIA

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