09 março 2007

DEBATES SOBRE O CONGRESSO DE NEGROS E NEGRAS

Sem vetos!
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por Márcio Alexandre - 12/3/2007
www.afropress.com

Rio - O jornalista colunista de Afropress, Márcio Alexandre, do Coletivo de Entidades Negras, fala dos desafios para o Congresso de Negros e Negras, e diz que sua entidade "não trabalha com a lógica de vetos". Leia a entrevista.

Afropresss - Que importância você atribui ao Congresso Nacional de Negros e Negras do Brasil?

Márcio Alexandre - Eu atribuo toda a importância do mundo. Acho que estamos prestes a realizar senão o maior, um dos maiores momentos da história do Movimento Negro contemporâneo. O Congresso está neste momento passando pelo que eu chamo de "contágio". Os atores políticos começam a se aproximar, os refratários começam a olhar diferente, as posições começam a ficar claras, quem é contra começa a dizer por que é contra, quem é a favor se manifesta, quem quer jogar contra joga, ou seja o jogo está aberto, franco, com todas as posições sobre a mesa. É o momento de darmos uma parada, analisar o cenário, respirar fundo e começar a fazer algumas reflexões que tendam a transformar o que é fraqueza em força, captar a essencia do debate e dar a ele a positividade necessária.

Afropress - Como está vendo a disputa de organizações que participam da Comissão Executiva, pela hegemonia da direção do Congresso, antes mesmo que ele seja aberto?

Márcio - Primeiro quero dizer que não vejo neste momento nenhuma disputa hegemônica. Vejo, sim, um momento em que todos estão se estudando, que alguns balões de ensaio estão sendo feitos mas, contrariamente do que se pode imaginar por aí, tenho visto, sim, enorme maturidade, desejo de construção e até mesmo um espírito colaborativo que há muito tempo não se via.

Logicamente não devemos aqui ser inocentes e acreditar que tudo segue às mil maravilhas e que essa maré de tranquilidade seguirá até o final do Congresso. Claro que não! No entanto, está claro que no teatro de operações onde o Congresso se desenvolve hoje, que é basicamente na Coordenação Política e, um pouco menos, na Comissão Executiva, está havendo não só um equilíbrio de forças como um respeito pela posição de cada um dos setores ali presentes. Há plena consciência de que ali está parte da força do MN seja ela histórica, política ou até mesmo de massa. Entendemos que ainda é pouco, que há que se ampliar, por isso a necessidade de se jogar peso no fortalecimento e ampliação da Coordenação Política, mas sempre visando respeitar a posição individual de cada organização. Entendo, sim, que existe uma diversidade, mas que mesmo dentro do expectro diversificado há agendas que nos unem, e a necessidade neste momento é de construção desta agenda coletiva.

Portanto, pensar em disputa hegemônica, ainda mais neste momento é: 1) desconhecimento real de como as reuniões e procedimentos da Comissão Executiva estão se dando; 2) é já projetar sobre o Congresso um olhar treinado para ver sempre as disputas internas e não o desejo de se construir algo novo. Acho que pela primeira vez estamos nos congregando para dizer que queremos construir algo novo. O momento das disputas, e isso é legítimo, faz parte inclusive do processo político, vai ser exatamente na hora de definir este novo. Mas vamos dar tempo ao tempo, permitir que as coisas ocorram na hora que tiverem que ocorrer. Sofrer por antecipação ou querer adiantar possíveis cenários de conflito não ajuda ao processo. Pelo contrário, já o estanca em seu nascedouro.

Afropress - Quais são, na sua opinião as divergências já expostas até aqui. CONEN, MNU e UNEGRO, concordam e discordam em que? E o CEN, qual a posição que está defendendo no Congresso?

Márcio - Acho que deve-se perguntar à Conen, MNU e Unegro sobre o que concordam ou o que discordam. Eu não tenho legitimidade nem mesmo autoridade para falar por outras organizações. Mas posso dizer que as três, as quatro, as 20, as 50 ou mais organizações que estiveram na assembléia do Rio concordam que deve-se realizar um congresso e que este congresso deve discutir um projeto político para o país a partir do olhar e da reflexão das negras e negros brasileiros. Não é pouca coisa! Pelo contrário é um avanço extraordinário tanto pelo viés político, quanto pela perspectiva conceitual da coisa. Não estamos mais querendo reinvindicar mas estamos querendo propor. Não queremos mais pedir, queremos construir espaços de participação onde nós sejamos os protagonistas. Não queremos mais migalhas (até porque não somos pombos), mas queremos inteiro, não pela metade. Esta para mim é a concordância. Por isso não me cai bem dizer que o Congresso é convocado por estas três organizações. Pode ter sido num momento. Uma vez assumida por uma assembléia a proposta passa a ser acolhida pela coletividade. Isso é regra parlamentar básica, todos nós aprendemos essas coisinhas no início de nossa militância.

Quanto ao CEN devo dizer que antes de tudo somos uma organização nova e com pessoas em sua coordenação que também são novas. Não diria jovens, pois todos já passamos dos trinta, mas somos novos. O Coletivo de Entidades Negras surge em Salvador em 2005 e nestes dois anos constitui uma base no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Amapá, em Belém, além de um forte diálogo tanto no sul do país quanto em São Paulo. O CEN dialoga prioritariamente com as casas de terreiro, com as religiões de matriz africana, mas passa também pelo viés da cultura, da ação política e da percepção de que só é possível avançar como entidade, constituir-se como ator político, se isso vier de uma base popular e comunitária. Enquanto eu estou representando o CEN nas articulações do Congresso os outros coordenadores estão visitando as entidades de base, falando do Congresso, promovendo formação.

Quando é dito que o Congresso é de negros e negras nós queremos que as negras e negros que não têm voz possam falar no Congresso. Nós somos a ponte que possibilitará a estas pessoas a travessia de sua base, de sua comunidade, para um espaço amplo onde possam dizer o que querem para suas vidas, para o seu cotidiano, para suas comunidades, enfim.

A posição política do CEN é defender um Congresso antes de tudo soberano. Defendemos o protagonismo das negras e negros brasileiros. O ator político do Congresso é o negro. Não é o sindicato, não é o partido, não é a Igreja. É o negro. É o negro e a negra que estão no candomblé, daí defendermos que as religiões de matriz africana tenham tratamento diferenciado das outras tradições religiosas, não porque as outras tenham menos valor, mas por que é nos terreiros que a resistência negra foi construída ao longo dos séculos em nosso país. Os terreiros são espaço de libertação dos negros e não de aprisionamento ou encapsulamento de seu modo de mexer o corpo ou lidar com o Sagrado.

Defendemos um Congresso que diga à sociedade brasileira que nós temos um projeto político que é diferente do que está aí. Que entendemos de economia, de agricultura, de saúde, educação e trabalho, que refletimos sobre a realidade do país em seu aspecto macro e que para cada questão temos propostas que são inclusivas, que de fato, poderão propiciar a construção de um país mais igualitário.

Defendemos, por fim, a "Refundação do Movimento Negro". Entendemos que o momento histórico pelo qual passa a discussão sobre a temática étnico-racial em nosso país exige novas estratégias e novas formas de militância. Vislumbramos o Movimento Negro como o mais importante movimento social do país e, sem dúvida, um dos mais vitoriosos da história do Brasil. Lutar como lutaram aqueles e aquelas que puseram à nú o conceito de "democracia racial", que gritaram ao mundo que o Brasil era um país racista, não é para muitos.

Nossas antigas lideranças são herois e heroinas que ao seu tempo foram brilhantes, foram precursores de um modo de luta do qual somos herdeiros. Precisamos, portanto, preservar a herança que recebemos e, ao mesmo tempo adequá-la aos novos cenários que estamos vivendo. Precisamos estabelecer a lógica de uma militância de base que responda ao chamado das lideranças. Temos que conquistar o homem e a mulher que estão lutando cotidianamente nas favelas e periferias pelo pão de amanhã. Precisamos dizer à mãe favelada que cria quatro filhos sozinha que, se por um lado lutamos por cotas nas universidades, por outro lutamos para que haja naquela comunidade uma creche em horário integral para que ela possa trabalhar tranquilamente sabendo que os filhos estarão na escola. Mas precisamo dizer também a esta mulher que só conseguiremos êxito se ela vier lutar com a gente. Que nós sozinhos não nos bastamos. Mas que com ela somos invencíveis. Somente assim, somente trazendo povo, massa, base, para o MN é que entendemos que daremos um salto fundamental para lograr êxito em nossas ações.

Quando pudermos, a um chamado, a uma convocação, colocar 100, 200 mil pessoas marchando sobre Brasilia nós teremos cumprido boa parte de nossa missão. Pois com 100 mil pessoas em marcha esse país pára. Com 100 mil negros e negras mobilizados as elites tremem. Este é o objetivo a ser buscado. E é para isso que o CEN vem, em silêncio, com discrição, sem grandes estardalhaços, trabalhando. E acreditamos que este salto rumo ao futuro começará a ser dado agora, com as mobilizações em torno do Congresso.

Afropress - O MNU, a organização que primeiro chamou o Congresso, tem falado que o principal objetivo do Congresso é aprovar o Projeto Político do Povo Negro. Entretanto, seus dirigentes não dizem que projeto é esse, se reduzem a falar em Reparações. Como você vê esse debate - equívocos e acertos.

Márcio - Se o MNU já tivesse dito qual é seu projeto político provavelmente estaria tomando paulada de tudo quanto é lado e ao invés de as organizações discutirem seus projetos, concentrariam-se em detonar o projeto do MNU.

Ora, veja, nós temos alguns vícios de origem. Alguns são nossos. Outros nos foram impingidos pelos brancos e suas práticas políticas que nós absolvemos e as reproduzimos. Um desses vícios é, exatamente, a adotar aquela lógica que diz "hay gobierno, soy contra", sem nem antes dar a chance de entender realmente o que se passa, o que é o processo, o que significa a proposição do outro. É a lógica de que se é proposto por meu amigo eu apóio, se é proposto por meu adversário eu já sou contra. Esquecendo-se que às vezes quem nos põe em sinuca de bico são os nossos amigos, e não o contrário.

Acredito que todas as organizações que estão envolvidas na discussão do Congresso em algum momento terão um projeto político para o país. A pergunta é: isso basta? Se sustenta? Claro que não! Eu tenho dito internamente, e digo de público porque não tenho problema em expôr minhas posições, que acho fundamental que o CEN, coletivamente - com o perdão do trocadilho - diga claramente o que quer com este Congresso. As outras entidades deverão dizer o mesmo. Ora, o mascaramentento das intenções é válido no pôquer. Mas a lógica do pôquer é ganhar do outro. O Congresso não pode partir desta premissa. Nós não estamos aqui para ganhar de ninguém. Nós queremos construir, queremos somar. Queremos ter determinadas posições e estamos dispostos a recuar delas para garantir propostas guarda-chuva (não vou usar a palavra consenso nem unidade porque me parecem que são palavras que se tornaram malditas de uma hora para a outra). Eu acredito na lógica guarda-chuva. Acredito que não temos que ser iguaizinhos.

Mas também não podemos ser burros. É como briga em porta de escola. Se eu for sozinho eu apanho. Se vou com meus colegas já equilibramos, podemos até apanhar, mas vamos dar trabalho. Eu acho que nós temos que começar a pensar em dar trabalho. Se não pensarmos assim, não sei, fica complicado.

Afropress - Como você viu a exclusão do Movimento Brasil Afirmativo da Coordenação Nacional, depois de ser anunciado no Rio como integrante da Coordenação, sem quaisquer explicações. E ainda: o silêncio de dirigentes da Comissão Executiva, que se recusam a falar sobre o tema, quando se sabe que o veto foi político, pela independência do MBA.

Márcio - Eu não vi! Francamente não vi! Não vi veto algum nem compactuaria com veto algum. A reunião de São Paulo trazia a memória da assembléia do Rio e dizia claramente que o critério era da representatividade nacional. A maioria das entidades presentes à reunião eram entidades nacionais. Verificou-se a necessidade de se convidar outras entidades nacionais, articulações nacionais, processos nacionais para se aproximarem. Isto é que foi posto.

Eu posso fazer duas leituras dessa questão: a primeira é de que há um problema localizado em São Paulo que parece que começa a tomar uma dimensão maior do que deve. É o clássico problema de São Paulo com o restante do país. E não acho saudável adotarmos a lógica de que o que acontece em São Paulo deve ser determinante para o resto do Brasil. Tem sua importância, sem dúvida, mas guardemos, pois, as devidas proporções.

A segunda é de que está se fazendo uma leitura equivocada do processo e aí os motivos para isso podem ser os mais distintos. Digo isso porque quando digo que o CEN não veta, quando sei que outras organizações não vetam, e este veículo afirma o tempo todo que houve veto, só posso pensar que ou não estamos falando a mesma linguagem ou está se dando importância maior à posição de determinados setores que a outros. Eu disse, afirmo e volto a dizer: o CEN não veta! Se o Movimento Brasil Afirmativo e/ou qualquer outra entidade responder aos critérios estabelecidos pela assembléia do Rio, nós bancamos politicamente a indicação. Nós apoiamos e fortalecemos. Não trabalhamos com a lógica de veto. Não nos interessa dividir, interessa agregar ao máximo.

Afropress - Como você recebeu a posição do Frei David, que já anunciou que a Educafro fica de fora do Congresso, porque tem outras prioridades. O Frei David também está propondo uma reflexão que nos parece necessária, o que ele chama de busca de unidade impossível, que ele aponta como um vício das organizações surgidas na década de 70, como o próprio MNU.

Márcio - Eu particularmente, e há muitos anos, chamo o David pelo nome próprio e não colocando à frente o seu título religioso exatamente porque o vejo sempre como um militante valoroso e poucas vezes como um padre, um frei. Eu sei que ele é frei, que está vinculado à Igreja Católica, mas a história de vida e política do David se dá numa militância importante e extremamente colaborativa junto ao MN.

Dito isto devo informar que tão logo li sobre a posição do David no Afropress fiz questão de enviar email para ele dizendo que havíamos decidido que um grupo de pessoas procuraria outras tantas para conversar sobre o Congresso. São pessoas, atores políticos, que são vitais, que devem estar proximos, e o David estava entre eles (este email não me foi respondido). De repente chega a posição de que a Educafro estará fora do processo e o pior, pelo que entendi, colocando-se contra a construção da unidade como se buscá-la fosse um crime e esta mesma unidade estivesse sendo imposta guela abaixo da militância do MN.

No dia 28 de setembro de 2005 eu mandava um email para as listas em que confirmava a informação dada por Eparrei de que a Educafro não participaria das marchas. Naquele momento reproduzi a seguinte conversa que tive com David: "Acabo de conversar com o Frei David e ele confirmou a informação passada por Eparrei Online. O Educafro decidiu não participar de nenhuma das marchas. Ele me disse, no entanto, que havendo uma proposta de consenso que busque promover a unidade dos setores do Movimento Negro eles poderiam rever a posição." Ou seja, dois anos atrás o problema é que não havia consenso. E, salvo grande engano de minha parte, as críticas ao David foram fortes, inclusive de Afropress. Agora, no entanto, é exatamente a busca pelo consenso que está gerando o afastamento de Educafro. Daí tendo a pensar que há um problema talvez não do MN com a Educafro, mas sim, da Educafro, ou do próprio David com o MN. Porque não participar dos dois eventos mais importantes do MN nos ultimos anos e apresentar dois argumentos antagônicos para justificar a mesma ausência, é complicado.

De minha parte quero dizer que a busca pela unidade é possível sim. Quando um não quer dois não brigam, já diziam os antigos. Nós temos que parar de brigar. Eu costumo dizer que não precisamos ter o branco como inimigo, nós mesmos nos bastamos. Está na hora de superar isso. Está na hora de compreendermos que somos fracos porque somos desunidos. E essa desunião fortalece o branco, não a nós. Mandela diz que liderar é uma questão de princípio, é perceber que nada que favoreça ao indivíduo fortalecerá a nação. É isso que temos que ter em mente. Nós como indivíduos pouco importamos. O que importa é nossa força coletiva, nossa força política. Agora se não descermos dos saltos, não deixarmos um pouco as vaidades pessoais de lado, será dificil construir um projeto coletivo.

Eu sou militante do campo do Software Livre e vejo 500 mil desenvolvedores no mundo todo trabalhando em versões estáveis do Linux o tempo todo. Pôxa, o que é o Linux comparado à luta contra o racismo. Será que não podemos trabalhar colaborativamente? Será que temos que ser autofágicos o tempo todo? Será que nos bastamos? Acho que temos que mudar essa lógica.

Afropress - Como você vê o fato de que, ao mesmo tempo em que fala de Projeto Político do Povo Negro, emenda popular propondo reparação, bem como Marcha para Brasília, em 2.008, o MNU abandona o Projeto do Estatuto da Igualdade Racial, em tramitação no Congresso há 11 anos. O coordenador do MNU, em S. Paulo, Reginaldo Bispo, chega a considerar "inócua" a defesa do Estatuto.

Márcio - Mais uma vez não vejo como justificar a posição de outra organização nacional sem incorrer no desrespeito e no equívoco político de afirmar que minha organização faria diferente, portanto minha posição é melhor. Agora, numa perspectiva pessoal, já que não há uma posição política do CEN fechada sobre este tema posso dizer que acho que o Estatuto da Igualdade Racial nasce velho. Não por culpa do senador Paim e nem porque a proposta seja má. Mas é que porque o tempo de tramitação que está tendo esse projeto já fez com que se desgastasse naturalmente.
Eu sou de opinião que tudo que venha fortalecer a luta contra o racismo, a luta contra as desigualdades raciais é sempre muito bem-vindo. Portanto eu sempre penso que propostas como o Estatuto, ações como a existência da Seppir e Palmares, são sempre importantes e precisam ser fortalecidas. Não tem discussão.

Agora precisa ficar claro qual é realmente o papel e o alcance deste Congresso. Daí penso que não cabe a ele dar conta das agendas reprimidas do Movimento Negro ou de todos os debates acerca das questões étnico-raciais em nosso país. Como exemplo eu falo da discussão sobre a redução da maioridade penal. Ora, sabemos todos e todas que este assunto vem eivado de objetivos ocultos tais como controle social, mais repressão e morte sobre a adolescência e juventude negras. É um imenso debate. Uma agenda importantíssima à qual temos que estar atentos. Agora cabe às organizações locais, nacionais, as específicas que lidam com direitos, violência, juventude e quetais assumir o protagonismo do debate e levá-lo às ultimas consequências. Não dá, para parar a discussão de um congresso que está sendo convocado para discutir um projeto político para o país e sair desse eixo para entrar em discussões que são fundamentais mas tem suas especificidades. Claro que no momento em que o Congresso estiver ocorrendo estes e outros temas, como o Estatuto, por exemplo, aparecerão. A questão é se estarão inseridos no debate sobre o novo modelo político que se quer.
É desafiador o processo. Não é fácil entendê-lo. Mas ele é também apaixonante, dado, inclusive, seu ineditismo. É a primeira vez que estaremos olhando o país como um todo e principalmente, com nosso olhar. É primeira que diremos para nós mesmos e para tantos outros o que faríamos de diferente. É uma grande responsabilidade. É uma reconstrução de pautas e de agendas. Há que se ter esta dimensão sempre, quando se pensar neste congresso.

Afropress - Você não acha que é hora do Movimento Negro construir uma agenda soberana, não subalterna, nem dependente de partidos e governos? Nesse sentido como vê a disposição da Comissão Executiva do Congresso de buscar apoio e financiamento do Congresso junto ao Estado e as estatais, utilizando o ministro Luiz Dulce como intermediário no processo de captação?

Márcio - Eu aprendi na minha militância nos direitos humanos que é sempre muito complicado conversar com os governos mas é sempre vital dialogar com o Estado. Logicamente que são os governos que representam o Estado e daí é que começam todos os complicadores. No entanto, é o Estado - na percepão ampla de que ele se constitui através do Executivo, do Legislativo e do Judiciários e nas esferas federal, estadual e municipal -, o principal promotor de determinadas ações e políticas e, nós, como agentes políticos não podemos nos furtar ao diálogo com esta máquina absolutamente poderosa.

Neste sentido eu vejo como absolutamente natural que se converse com Matilde, com Dulci, com o Itamaraty, com o Congresso Nacional, com as empresas estatais, com os governos municipais e estaduais sobre o Congresso, sobre formas de apoio a ele. Inclusive, porque é a Conferência de Durban que reafirmará a necessidade de os Estados Nacionais apoiarem políticas que venham a fortalecer os movimentos sociais de luta contra o racismo. Então não estamos fazendo nada de mais, não estamos cometendo nenhum grande pecado, nem mesmo um erro estratégico em conversar com o Dulci que é o ministro responsável por dialogar com a sociedade civil no governo.
Se formos pensar em termos da construção da agenda soberana do Movimento Negro é para isso que estamos construindo o Congresso. Veja bem, por muitos anos se acreditou que vincular a pauta do Movimento Negro às agendas político partidárias seria bom para este movimento. Isso se mostrou um grande equívoco. Hoje temos menos parlamentares negros que nos anos de 1990. Alguma coisa deu errado. Serão as negras e negros que estão nos partidos políticos que deverão responder o que deu errado, mas que algo aconteceu, não há dúvida.

Portanto há que se considerar que este modelo chegou ao seu esgotamento. Por isso a necessidade de "refundar o MN". Porque quando falamos em refundar dizemos que devemos abandonar algumas estratégias para pensar noutras novas. E neste sentido acho que pensar uma estrutura permanente de debate e diálogo entre todos os setores do MN será o primeiro passo. O que virá depois, será construído a partir do que as bases, a militância trouxer.

Mas eu sou um franco defensor de uma agenda livre das ingerências partidárias, sindicais, das Ongs e das agências financiadoras. É aquilo, que já dizia Steve Biko e Alzira Rufino releu durante a marcha: nós estamos sós, por nossa própria conta, é assim que temos que nos ver e temos que agir. Quando passarmos a não esperar nada dos outros, mas apenas de nós mesmos com certeza estaremos qualificando muito mais nossa militancia.

Afropress - Como encara a reação ao fato de Afropress ter divulgado esses dados, corroborados em entrevista do Edson França, da Unegro, membro da Comissão Executiva?

Márcio - Edson não divulgou nada de extraordinário, como também não o fez Afropress. Os dados eram públicos, estavam num relatório de reunião e, de fato, não temos nada a esconder. Pelo contrário, devo dizer inclusive, que os números apresentados são modestos, estamos trabalhando com uma perspectiva financeira maior do que aquela. O que acho que gera incômodo é o tom, é como se diz. Mas, como já afirmei anteriormente, acho que há algumas questões locais que estão meio que tentando contagiar o nacional, mas para nós que não estamos em São Paulo, esse contágio não se dá, então muitas das vezes ficamos meio que tentando entender exatamente o que está se passando. Ao entendermos nos tranquilizamos pois não vemos, realmente, uma questão de fundo que ponha a perder a construção coletiva. Agora se isso vier a acontecer, lutaremos para construir pontes de diálogos e lamentaremos se falharmos.

Afropress - Destaque, quais os campos políticos que estão se esboçando e se é possível reverter a correlação de forças, que nos parece, hoje francamente favorável aos mesmos grupos e lideranças que advogam uma agenda para o MN totalmente dependente de partidos e governos.

Márcio - Eu acho que precisamos aprender com os nossos erros. Quando, dois anos atrás o MN partiu para realizar duas marchas, eu acho que se tivesse havido a marcha das pessoas que ficaram aborrecidas com a divisão esta seria maior que as outras duas. Ou seja, os erros políticos que levaram à constituição de duas marchas afastaram militantes, instituições que eram vitais (vide o exemplo da Educafro) e geraram a idéia de que havia um movimento independente e um movimento chapa branca. Talvez hoje possamos dizer que a chapa nem está tão branca de um lado e nem o outro lado é tão independente assim.

Eu, sob determinados aspectos, acho o governo Lula um fracasso. Acho que o governo fracassa em lidar mal com a questão racial, fracassa na questão da comunicação, fracassa na discussão dos direitos humanos e da reforma agrária, entre outros. Mas acho que temos que manter canais de diálogo com o governo, mesmo batendo nele. Eu sempre me sinto à vontade para bater nos governos porque penso que os movimentos sociais são a consciência crítica da sociedade. No momento em que os movimentos sociais vinculam-se a determinados partidos ou governos ele perde essa capacidade de agir como consciência crítica.

Eu advogo a independência, sou defensor da autonomia. Nâo gosto das práticas nem dos modus operandii de determinados setores que ocupam-se da máquina pública e dela locupletam-se usando, inclusive, o nome do MN. Mas penso que só as combateremos quando, de fato, construirmos um projeto amplo que construa uma fala legítima das reais lideranças que surgirem desse processo. Um processo que se legitima das bases constrói novas lideranças. Será a hora de ver quem lidera e quem faz marola. Quem é liderança e quem é apenas "personalidade". Quem constrói politicamente e quem fica pendurado como papagaio de pirata.

Penso que o Congresso poderá ser um divisor de águas. Mas isso só se dará se aqueles que acham que o MN tem que ser autônomo, livre das ingerências político-partidárias se somarem a este processo. Caso isso não ocorra, provavelmente estarei lá sozinho, com o apoio de um ou outro companheiro. Mas estarei. Mas que fique claro que quando entramos neste processo acreditamos que outros setores se somariam, do mesmo jeito que fomos lá somar na hora da marcha. Este é o dinamismo do processo. É esse tipo de sinergia que precisamos construir.

Afropress - Faça as considerações que julgar pertinentes.

Márcio - Acho que já disse muito. Só quero reforçar a importância de Afropress como veículo de mídia que, ao problematizar algumas questões possibilita o desenvolvimento de um melhor debate. Nem sempre vou concordar com as posturas do veículo, vou discordar do editor que é antes de tudo um querido amigo pessoal, mas vou sempre defender o direito de Afropress agir como mídia independente e autônoma. Igualzinho ao que queremos para o Movimento Negro.

No mais quero dizer que não vale à pena combater o preconceito com outros preconceitos. O conceito pré estabelecido de alguma pessoa, situação ou grupo é motivo de guerras, de mortes e é gerador de desgraças e tragédias. É contra isso que lutamos. Se começarmos nós mesmos a nos olhar preconceituosamente já estaremos derrotados logo no início. E SunTzu já dizia que o primeiro passo para ganhar uma batalha era conhecer o inimigo, pesquisar o terreno e saber bem quais eram as suas forças. Nós estamos nos preparando para uma grande batalha. Nós estamos torcendo o nariz para nós mesmos. Mas tenho absoluta certeza que nossos inimigos já estão nos pesquisando.

Deixo aqui, portanto, um apelo ao bom senso, um apelo à sensibilidade e ao desejo que cada homem e cada mulher vinculado ao MN tem de ver este país sem desigualdades raciais: venha participar do processo de construção do Congresso. Venha discordar dentro das reuniões. Venha pôr suas idéias na roda pra discussão. É fácil jogar pedra do lado de fora. O difícil é construir coletivamente, mas temos que começar de algum lugar. E o lugar, neste momento é a Coordenação Política do Congresso.


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UM CONGRESSO PARA TODOS (AS) OU PARA OS (AS) ESCOLHIDOS (AS)"?
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por Dojival Vieira - 10/3/2007
Editorial Afropress
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A decisão do Movimento Brasil Afirmativo de ignorar a plenária convocada em S. Paulo que tirou delegados para a sessão de abertura do Congresso dos Negros e Negras do Brasil, previsto para abril, em Belo Horizonte, e a posição da Educafro – a maior organização de cursinhos pré-vestibulares para negros e carentes do país – comunicada pelo Frei David, em entrevista à Afropress, de não participar do Congresso, são um duro recado para o Movimento Negro Unificado (MNU), a CONEN e UNEGRO – as três organizações que o estão convocando.

Mais do que um sinal de que recusa integrar o bloco do “amém” e reivindica um Movimento Negro e anti-racista independente do Estado e autônomo em relação aos Partidos, a ausência do Movimento Brasil Afirmativo – uma articulação de lideranças negras de S. Paulo, responsável pela Parada Negra, realizada em novembro passado – é uma denúncia.

Na plenária anterior de S. Paulo, lideranças do Movimento estiveram presentes, apresentaram documento como contribuição ao debate, fizeram parte da caravana de delegados que foi ao Rio, foram anunciados como integrando a Coordenação Nacional para, em seguida, serem excluídos. Sem qualquer aviso, consideração, ou explicação.
Explicações que, aliás, estão sendo pedidas desde o dia 26 de janeiro deste ano. Além das tergiversações de praxe, os dirigentes da Comissão Executiva do Congresso, eventualmente, acenam com um possível convite, como se fosse concebível que um grupo seleto de pessoas, que não receberam procuração nem delegação de ninguém, pudessem passar a decidir quem pode e quem não pode participar; em última análise: quem é ou não é negro; quem tem mais tempo de casa, e vai por aí.

Nesse meio tempo, tentam, em privado, acusar esta Afropress de pretender “melar” ou “desestabilizar” o Congresso, e coisas desse tipo, sem o menor nexo nem sentido, por duas boas razões: a Afropress não tem esse poder. Se o tivesse, não teria qualquer interesse em prejudicar o Congresso, como pode ser demonstrado, com um breve balanço em nosso banco de dados: nenhum outro veículo de comunicação deu mais notícias sobre o Congresso e espaço ao seus dirigentes.

A outra razão é que, embora sua linha editorial, tenha maior sintonia com as linhas de ação do Movimento Brasil Afirmativo, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Afropress é uma Agência de Notícias, focada na temática racial e étnica, criada no espírito do Plano de Comunicação, aprovado em Durban, e que definiu o uso das modernas tecnologias, entre as quais, a Internet, como “instrumento estratégico de combate ao racismo”. Faz jornalismo focado na temática étnico-racial, buscando respeitar os princípios da ética e da pluralidade e de sempre ouvir o outro lado. Zela, como um princípio, por sua independência editorial. Não, por outra razão, mesmos os nossos detratores, no plano das idéias, têm espaço.

Só não há espaço, para racistas assumidos e ou camuflados que, são por sinal, os que nos atacam, inclusive ameaçando a integridade física e da família dos seus jornalistas, fato sobejamente conhecido.

O Movimento Brasil Afirmativo é outra coisa. Trata-se de uma articulação política de lideranças negras e anti-racistas que age baseada nos princípios da independência, da autonomia em relação a partidos e a governos e busca uma agenda soberana e um programa capaz de reunir todos os setores anti-racistas da sociedade, para botar abaixo o edifício do racismo, em nosso país.

Em verdade, os nossos detratores estão nos acusando apenas por uma única razão: nossa independência editorial.

O recente “piti” público dado pelo coordenador do MNU, em S. Paulo, Reginaldo Bispo, por conta da matéria em que revelamos o orçamento estimado do Congresso e os seus potenciais financiadores – o Estado e as estatais -, bem como o intermediário para obtenção desses recursos,- o ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Luiz Soares Dulce - é emblemático.

Avessos à transparência, alguns dirigentes - como parece ser o caso de Bispo - revelam a postura autoritária que se esconde por trás dos discursos. Quem critica, vira imediatamente o inimigo a ser atacado, ou eliminado, sabe-se lá. O viés da luta política como uma conspiração, de triste memória, é imediatamente recuperado e assumido, sem nenhum subterfúgio.

A entrevista de Frei David a Afropress, comunicando que a Educafro, a organização da Igreja Católica, com maior capacidade de mobilização, pelo menos em S. Paulo, por outro lado, propõe uma reflexão, que precisa ser feita. Lembra Frei David que, a tentativa de promover uma unidade impossível entre diferentes tendências e posições, é um vício herdado da década de 70, quando o Movimento Negro, ressurgia, em plena ditadura, e que – diz Frei David com todas as letras – precisa ser superado. “Assim como os brancos estão em todos os partidos e tendências, e não necessariamente, debaixo do mesmo guarda-chuva, nós negros também devemos nos permitir esse direito”, afirma. Para acrescentar, anunciando o porque a Educafro ficará fora: ”O respeito à diversidade é fundamental”.

Por tudo isso, é bom que os dirigentes do MNU, UNEGRO e CONEN – as articulações/organizações que estão transformando o Congresso em um "Congresso kombi" (a "kombi" dessas próprias organizações) - aprendam uma lição que já deveríamos ter aprendido, até pelo histórico de humilhações de séculos: só há diálogo entre iguais, que se respeitam.

Os brancos racistas não nos ouvem pelo próprio fato de, sendo racistas, nos considerarem menos e, portanto, que nada temos a dizer de importante. Entre nós, negros, para que o diálogo seja possível há duas pré-condições: primeiro, não pode haver, entre nós, quem se considere mais; nem menos; segundo:saber ouvir.
Se essas organizações querem realizar um Congresso Nacional dos Negros e Negras do Brasil, ainda há tempo. Mas, ele está rapidamente se esgotando, junto com a paciência de muita gente, que tem algo a contribuir e muito a dizer.

Se não, esse Congresso será apenas um encontro dessas organizações. E aí, só nos resta uma coisa: desejar boa sorte. Ah, e que nos informem das Resoluções.

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EDUCAFRO FICA FORA

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diz Frei David, 9/3/2007
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S. Paulo - O Frei David Raimundo dos Santos Ofm, diretor Executivo da Educafro, a maior rede de cursinhos pré-vestibulares para negros e carentes no país, disse que a organização não participará do Congresso de Negros e Negras do Brasil, proposto por algumas organizações do Movimento Negro, como o Movimento Negro Unificado (MNU), a UNEGRO e a Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN).

“A comunidade negra precisa superar uma fase em que nós mesmos exigíamos de nós, a ferro e fogo, uma unidade impossível”, afirmou, destacando, no entanto, que “a Educafro entende como fundamental a articulação da comunidade negra em todos os setores da sociedade”.

Segundo Frei David, essa busca de unidade a qualquer custo foi uma característica de movimentos surgidos na década de 70 e que ficava expressa até mesmo no nome das entidades. Citou como exemplo, o Grupo União e Consciência Negra, entidade ligada a Igreja Católica, e o próprio Movimento Negro Unificado (MNU). “Assim como os brancos estão em todos os partidos e tendências, e não necessariamente debaixo do mesmo guarda-chuva, nós negros também devemos nos permitir esse direito. O respeito à diversidade é fundamental”, afirmou.

Frei David disse que a não participação da Educafro também se deve ao fato de a organização está numa fase de excesso de trabalho. “Temos a meta de conseguir a inclusão de 2 mil estudantes negros na Universidade, até o mês de abril. Não podemos ter participações extras nesse período”, concluiu.

Fonte: AFROPRESS

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NOVOS RUMOS

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por Milton Barbosa, Miltão, é Coordenador Nacional de Relações Internacionais do Movimento Negro Unificado (MNU), a organização que propôs o Congresso. - 21/2/2007
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S. Paulo - Milton Barbosa, Miltão, fundador e líder histórico do Movimento Negro Unificado (MNU) diz que o Congresso de Negros e Negras, marcado para março, dará “novos rumos” à luta do povo negro no Brasil. Leia.

Afropress - Como estão os preparativos para o II Congresso dos Negros e Negras?

Milton Barbosa - O Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil, já é uma realidade, pois superou crises iniciais de possível esvaziamento, devido a tentativas frustradas e, hoje se afirma como uma ação política de grande envergadura que deverá dar novos rumos à luta do povo negro no Brasil.

É o primeiro Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil, pois a inclusão da palavra Negras é um conquista histórica das mulheres negras, que além de dar um novo conteúdo à luta das feministas, pois as mulheres negras sempre foram trabalhadoras e chefe de família neste país, por isso deram qualidade à lutas das mulheres, influenciaram as ações do movimento negro, refutando posturas machistas do homem negro e incidindo decisivamente nas propostas atuais da luta do nosso povo.

Respeitamos as dezenas de Congressos e Convenções Nacionais já realizados, e levaremos em conta suas resoluções, seus avanços históricos, mas estamos intitulando o atual apenas de Congresso em respeito a esta contribuição especial das mulheres negras.

Os preparativos do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil, está indo bem, apesar da dificuldade de se desenvolver este tipo de empreitada. A Coordenação do Congresso decidiu pelo ato de lançamento e abertura para o dia 23 de março de 2007, em Belo Horizonte - MG. A abertura deverá acontecer em local para 600 pessoas e deverá ser realizada uma Plenária Nacional no dia 24 de março, com trezentos delegados que estamos trabalhando para que seja de todo o país. No dia 25 haverá uma reunião da Coordenação ainda em BH-MG.

Haverão Plenárias Estaduais nos Estados até o dia 18 de março. A de Minas Gerais será no dia 22 de março, para facilitar a participação dos delegados de Minas Gerais, que terão maiores dificuldades para se organizarem tendo em vista estarem sediando o Ato de Abertura do Congresso, a Plenária Nacional e uma reunião da Coordenação.

A Plenária Estadual do São Paulo, será no dia 10 de março, em local que será divulgado previamente, para que grupos, entidades e pessoas, tenham condições de participar e dar seu parecer e se apresentarem como possíveis delegados ao Congresso.

Lembramos que o Congresso terá várias etapas, com assembléias municipais, em outros momentos, estaduais, nacionais, discussões por temas e setores.

Afropress - Além de você, Edson França, da Unegro, e Ernesto Pereira, quem são os membros da Executiva da Coordenação Nacional de entidades Negras responsável pela preparação do Congresso?

Miltão - Há uma Coordenação do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil formada por entidades e articulações nacionais e, no seu interior uma Comissão Executiva formada pelo MNU, CONEN, UNEGRO, INTECAB, CEN, CNAB, CEAP, CNNC, ANCEABRA, Fórum Nacional de Mulheres Negras, Quilombolas, Juventude e Circulo Palmarino.
Para compor a Coordenação além das entidades e articulações nacionais que já fazem parte, os Estados deverão indicar dois/duas representantes por Estados.

Afropress - Quais os critérios adotados para a exclusão do Movimento Brasil Afirmativo da Coordenação Nacional?

Miltão - O Brasil Afirmativo poderá compor a Coordenação do Congresso através da representação pelo Estado de São Paulo, ou se for o caso, por se articular nacionalmente, bastando para tanto se fazer presente nas instâncias de discussões e debates.

Afropress - Por que razão o temário do Congresso ignora a luta pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, projeto em tramitação no Congresso há 11 anos e que sintetiza as aspirações históricas da população negra?

Miltão - A tarefa do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil é construir o Projeto Político do Povo Negro Para o Brasil, para se contrapor ao projeto político que hoje está colocado, que é branco, racista, machista, capitalista, que explora, massacra, violenta e mata o povo negro.

Queremos construir um projeto que democratize de fato este país, eliminando a exploração social, política e econômica dos seres. Construir uma sociedade sem racismo, machismo, ou qualquer outro tipo de discriminação.

Para construir um projeto desta magnitude deveremos aglutinar negros e negras dos mais variados campos de luta e trabalho não havendo à priori nenhuma definição quanto ao temário.

Todas as pessoas e grupos políticos poderão produzir a fim de contribuir para o processo que se dará através de consenso ou voto, não estando descartado nenhum ponto de vista.

Afropress - Como é que a direção do Congresso responde a críticas de vastos setores do Movimento Negro que a vêem como a expressão do domínio de Partidos no interior do Movimento?

Miltão - Em relação à expressão dos partidos no interior do movimento negro, até não gosto, mas o ser humano se organiza em termos de idéias sendo natural determinado tipo de tentativa de participação, cabe a nós pela experiência que temos de trabalho e de luta minimizarmos este tipo de influência, quando nefasta.

Somos vítimas do colonialismo, e as mais variadas correntes do pensamento buscam dividir a nós negros e negras tentando nos manipular politicamente, este processo é histórico e temos que saber administrar estas contradições. O que não podemos é sermos reféns desse tipo de ação.

Estamos em construção de um PROJETO POLÍTICO DO POVO NEGRO PARA O BRASIL, com certeza não agrada há nenhum partido de esquerda, de direita, de centro, setores católicos, evangélicos, ou de outra religião qualquer. Este projeto nós temos de construir independente do que pensa nossos adversários, inimigos ou concorrentes.

Afropress - Como responde às críticas de falta de transparência e de democracia na condução do processo?

Miltão - A luta política é dinâmica e, possivelmente, não agradaremos há todos. Mas buscaremos realizar nossas ações da forma mais transparente possível, de forma que todos os participante tenham provas da nossa lisura, mas não seremos reféns das pressões externas, seja através de órgãos de imprensa da grande mídia ou alternativa, negra, sindical, cultural e outras formas. Aqueles que participarem da nossa luta, terão as informações e direito de participação garantidos, e buscaremos ser os mais amplos possível, pois quando nos juntamos somos fortes e tentam nos dividir para nos dominar.

As reuniões serão abertas, mesmo porque vivemos num momento especial de democracia, que conquistamos a duras penas. Levantaremos bem alto nossas bandeiras e contamos com todos os negros e negras para mais este passo histórico. Temos que desenvolver não apenas um programa partidário, mas desenvolver um novo processo civilizatório. A construção do nosso PROJETO está apenas começando: “Mãos à obra”.

Foto:Portal Afro

1 comentários:

Geraldo Gomes disse...

Até quando seremos violentos?Até quando cultuaremos padrões e "valores" violentos?Até quando seremos violentos e reclamantes da violência?ACOOOOOOOOOOOORDA SERES HUMANOS.Eu não escolhi o meu nome,minha família genética,meu estado natal e nem tampouco o meu sexo,a minha cor,os meus olhos,a minha boca,o meu cabelo e o meu corpo.Mas POSSO me sentir acima dos padrões,das crêndices,dos conceitos e dos enes ítens violentos ditados e cultuados por seres humanos inteligentes,violentos e medíocres.Acordem,NÓS SOMOS O QUE FAZEMOS NUNCA PODEREMOS SER O QUE NOS FAZEM.Mais informações acessem:www.geraldo-gomes.blogspot.com

 
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