29 junho 2009

REVOLUÇÃO AFRO-BRASILEIRA: EM BUSCA DA IGUALDADE

escrito por Sátira Machado[1]

Você já percebeu que estamos vivenciando uma revolução, que impulsiona a igualdade? É a Revolução Afro-brasileira. Trata-se de um dos grandes acontecimentos sociais que vem marcando a superação do racismo pela promoção da diversidade no Brasil. Mesmo que invisibilizada pela grande mídia, ganha o reconhecimento internacional e repercute no mundo inteiro[2].

Considero o marco inicial a primeira evocação do Dia da Consciência Negra, que foi uma manifestação do movimento negro gaúcho em alusão ao revolucionário Zumbi dos Palmares. Aconteceu em Porto Alegre, em 1971, quando o dia 20 de novembro foi celebrado e amplamente divulgado pelo poeta negro gaúcho Oliveira Silveira, justamente no Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial (ONU).

Sem desconsiderar a anterior caminhada histórica dos afro-descendentes, de lá para cá muitas intervenções sociais impulsionaram a inclusão das negritudes nas brasilidades. Muitas delas, rompendo com os modelos tradicionais de análise do racismo, distantes do contexto nacional. Culminando com a criação da Fundação Cultural Palmares junto ao Ministério da Cultura em 1988, consolidando os ideais de Zumbi.

Para além das ondas de protestos nas ruas, como a Marcha Zumbi dos Palmares: contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida (1995), os vanguardistas dessa revolução simbólica também usam o gingado, o sorriso, os ritmos, os cabelos crespos, as cores vivas, o cantarolar, o toque, os balangandãs e o axé para exigir direitos iguais para todos e sensibilizar para a paz.

Em 2001, mais um passo importante foi dado. A significativa participação da delegação brasileira na III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata (Durban – África do Sul) projetou-se no atual protagonismo do Brasil na execução de ações que materializam as recomendações de Durban, do ponto de vista do direito de ser “igual na diferença”, engrandecendo a América Latina e a África Negra.

Liderada pelos afro-brasileiros em movimento, a Revolução Afro-brasileira é regida pela busca da igualdade de oportunidades para todos no acesso aos bens materiais e imateriais da humanidade. Além de outras demandas, esse processo revolucionário vem relativizando o decadente privilégio da memória de alguns, colocando em seu lugar as reflexões sobre as relações étnico-raciais num país multicultural.

O clímax: a Lei 10.639/2003, resposta às reivindicações históricas do movimento social. A lei tem a co-autoria da ex-deputada gaúcha Esther Pillar Grossi, inclui a História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no sistema de ensino e suas diretrizes de implantação tiveram a relatoria da gaúcha Profª Drª Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Nasce também para solucionar a grave crise das identidades nacionais, que afetam o desenvolvimento sócio-econômico pleno do Brasil e potencializa várias outras ações afirmativas de promoção da igualdade para todos, principalmente para as etnias historicamente discriminadas.

Revolução institucionalizada em 2003, quando negros e negras, principalmente, assumem os governos brasileiros através da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial ligada ao Gabinete do Presidente da República, expandindo-se nos órgãos governamentais correlatos criados nos estados e municípios da federação.

A esses gestores governamentais, oriundos dos movimentos sociais, somam-se os aliados da igualdade de vários grupos: os judeus, os palestinos, os ciganos, os indígenas, entre outros de diversas etnias que também buscam o fim das desigualdades, num mutirão de implementação de políticas públicas em várias áreas sociais.

Nessa monta, há mais de 35 anos, em todo o território nacional as festas novembrinas do Dia Nacional de Consciência Negra enegrecem o país com exposições, festivais, convenções, etc. Formatam assim um movimento de reação crítica aos padrões que despersonalizam os brasileiros, provocando fortes reações de setores conservadores.

Então, por trazerem experiências inovadoras e originais que incorporam anseios de revitalização cultural e social do país, os anos de Revolução Afro-brasileira são dignos de um capítulo nos livros didáticos brasileiros, necessitando ser valorizada por nossa historiografia oficial, assim como a Semana de Arte Moderna, por exemplo.

[1] Professora, jornalista, doutoranda em comunicação.[2] Entendo que os estudos sobre a Revolução Afro-brasileira compreendem em elencar vários aspectos da história social, econômica, educacional, cultural, religiosa, etc, que incluem os afro-descendentes no Brasil. Essa abordagem está sendo desenvolvida no meu processo de doutoramento. Sugestões para satira.jornalista@yahoo.com.br.

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