09 novembro 2012

Queimada, filme em alusão ao HAITI



Este texto realiza uma análise crítica do filme Queimada, utilizado em uma formação em epidemiologia para trabalhadores do sistema de saúde do Haiti.O filme é antigo, mas está articulado a uma iniciativa recente que, de certa forma, lhe dá atualidade. A história se passa numa ilha fictícia chamada Queimada, localizada nas Antilhas Menores, e no filme seu nome é explicado pelo fato dos portugueses queimarem a ilha para vencer a resistência dos índios durante o processo de colonização, quando quase todos os nativos foram mortos. A seguir, os portugueses começam o tráfico de escravos da África para trabalhar nos canaviais e, segundo o mito da ilha, contado no início do filme, existe uma pedra branca e chata na praia chamada "Cemitério Branco dos Negros". Os corpos dos escravos que morreram durante à viagem eram colocados naquele local.

Ainda que contenha uma franca alusão à história do Haiti, o filme traz atores que não fizeram parte da história do Caribe, como os portugueses, que não tiveram nenhuma colônia nas Antilhas e seus supostos inimigos ingleses, já que os portugueses nunca romperam as relações com a Inglaterra. Embora haja incorreções históricas na narrativa de Pontecorvo, entendemos que o filme traz aportes importantes para a discussão acerca da realidade histórica do Haiti, a primeira revolução escrava vitoriosa das Américas.

A independência do Haiti, influenciada pela Revolução Francesa, é considerada a única revolta de escravos bem-sucedida desde a Antigüidade Clássica (MILANI, 2012). Em 1791, na ilha de Santo Domingo, o escravo Toussaint L’Overture inicia uma rebelião contra a elite dominante francesa, que se torna uma luta pela emancipação da colônia e abolição da escravatura. A guerra continua por um período de dez anos, quando ele é aprisionado pelas tropas de Napoleão Bonaparte e levado à França. Porém, os escravos continuaram resistindo e em 1804, Jean-Jacques Dessalines proclama a independência da ilha, que passou a se chamar Ayti – nome dado ao local pelas primeiras populações indígenas, que significa “a terra das montanhas”.

A Ilha de Santo Domingo também é conhecida com Ilha do Haiti, Hispaniola ou Espanhola, nomes dados pelos europeus quando chegaram ao local. Pertence ao Arquipélago das Antilhas e depois de Cuba é a segunda maior ilha do Caribe. Localizada a oeste de Porto Rico e sudeste de Cuba, está dividida politicamente entre dois países: República Dominicana, a leste, e Haiti. Foi nesta ilha que Cristóvão Colombo estabeleceu a primeira colônia da América, em 1493.

Livres da França, os países que mantinham relações comerciais com a ilha, temerosos de que esse ato de rebelião se expandisse para as colônias americanas, isolaram economicamente o país. Além de ter de pagar uma quantia exorbitante de indenização para a França, o Haiti sofreu uma grave crise econômica, principalmente após a morte de Dessalines, em 1806 (SILVA, 2012b).

O filme foi utilizado em atividades de um programa de educação permanente de trabalhadores do sistema haitiano de vigilância em saúde, proposto pelo Grupo de Trabalho em Educação, Informação e Epidemiologia realizadas no âmbito da Cooperação Tripartite Brasil-Haiti-Cuba iniciadas após o terremoto que devastou parte do país em janeiro de 2010. O filme Queimada foi incluído no primeiro módulo do curso como um dos dispositivos pedagógicos para alavancar a discussão da história das doenças, epidemias e práticas sanitárias no Haiti.

A Cooperação Tripartite Haiti/Brasil/Cuba tem como um de seus objetivos principais o fortalecimento da capacidade institucional do Ministério da Saúde Pública e da População do Haiti em ações de vigilância da saúde. Para atingir este escopo, foi elaborado um projeto de intervenção, prevendo a criação de salas de análise contínua de dados epidemiológicos, que se convencionou chamar de Espaços de Educação e Informação em Saúde. A proposta foi construída por uma equipe composta por representantes das instituições brasileiras, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por interlocutores do Ministério da Saúde e da População do Haiti e das Brigadas Cubanas.

Foi elaborado um projeto pedagógico (PROJETO, 2012) para a formação de profissionais de saúde haitianos que irão operar os Espaços de Educação e Informação em Saúde (EEIS). Esses espaços irão funcionar a nível departamental e tem como objetivo incrementar a análise de dados epidemiológicos produzidos nos 10 Departamentos ou regiões sanitárias haitianas, além de integrar as atividades das vigilâncias com educação em saúde. A capacitação busca o fortalecimento do sistema de vigilância epidemiológica (VE), além de contribuir para a melhoria dos sistemas de informação, das ações de vigilância em saúde e da gestão do sistema de saúde no Haiti.

Os conteúdos referentes às pedagogias que norteiam este processo incluem a educação permanente, a educação pautada nas práticas de trabalho cotidianas, a educação de caráter crítico e problematizador (BRASIL, 2007). Essa perspectiva transversaliza o processo de formação e está presente em todos os momentos do curso. O projeto será desenvolvido de modo teórico-prático, mantendo a intercomunicação entre ensino e trabalho, de modo que a aprendizagem esteja comprometida ética e operacionalmente com a qualificação dos serviços de saúde.

O conteúdo dos módulos foi escolhido em consenso pela equipe de trabalho Brasil-Haiti-Cuba, e o material teórico está sendo adaptado a partir de referências brasileiras e internacionais, mas focado na situação sanitária haitiana e nos dados demográficos e epidemiológicos do país. Os módulos serão desenvolvidos com base na experiência acumulada pelos três países cooperantes, nas propostas assistenciais de caráter universal, nas metodologias participativas e nos pressupostos da atenção básica em saúde.

Nesse processo, a epidemiologia é pensada como uma ferramenta de caráter crítico e social, alicerçada na realidade do país, focada na descrição, análise e resolução dos problemas prevalentes de saúde da população (BREILH, 2006).

Os módulos temáticos se referem aos grandes temas da epidemiologia, porém em conexão com as propostas da saúde pública. O primeiro módulo estuda os conceitos de saúde/doença, as práticas sanitárias e os sistemas de atenção em saúde. Um segundo grupo de temas diz respeito à descrição e às medidas de freqüência das doenças na população, além da elaboração de indicadores demográficos, de saúde, doença e morte, enfatizando as desigualdades produzidas por gênero e classe social. Um último bloco se refere às vigilâncias do campo da saúde (epidemiológica, sanitária e ambiental, incluindo desastres e suporte de laboratório de saúde pública), além da análise da situação de saúde, pensada não só em seus aspectos quantitativos, mas abordando qualitativamente a cultura, a organização social, a produção artística e os movimentos de resistência encetados pela população.

Cada módulo é composto por um conjunto de atividades presenciais, guiadas por um texto teórico-prático, exercícios, textos, uso de comunidade virtual, estudos à distância, leituras adicionais, filmes e outros materiais. Utilizamos intensamente as referências cinematográficas em todos os momentos do curso, entendendo que o filme pode ser utilizado como meio de reflexão crítica sobre os problemas da sociedade, incluindo os grandes temas da saúde coletiva.

A propósito do uso de filmes em sala de aula, podemos afirmar que as imagens, cada vez mais, são dotadas de sentido e são excelentes gatilhos para as discussões acadêmicas e para a aprendizagem. “Filmes e vídeos detêm muito poder na cultura ocidental. Eles desempenham uma função bárdica. Negociam valores e significados culturais, disseminam informação (e desinformação), provocam mudança social e geram debates culturais fundamentais”, diz Carl Plantinga (1997).

Para o primeiro momento do curso, em que discutimos a saúde como um acontecimento histórico, político e social, escolhemos o filme italiano chamado Queimada! (PONTECORVO, 1969). Pontecorvo, um diretor italiano dos anos sessenta, que também dirigiu o clássico “A Batalha de Argel”, faz um cinema social, de denúncia, e em Queimada, retrata a situação de super-exploração de escravos em plantações de açúcar no Caribe do século XVIII.

A escolha desse filme em um Curso de formação de pessoas para operar os Espaços de Educação e Informação em Saúde que está sendo realizado no Haiti no âmbito da Cooperação Tripartite se deveu a vários aspectos, um deles é a dificuldade de obtenção da película, que foi banida no Brasil durante o período da ditadura militar, outro fato é de que também não é conhecida no Haiti. Além disso, havia a vontade de mostrar ao grupo de profissionais haitianos a preocupação em pesquisar e estudar a história social, política e sanitária do país e não apenas levar um pacote pronto de técnicas e ferramentas de epidemiologia e estatística.

Estava implícito o compromisso da equipe de trabalho em estabelecer vínculos e uma relação de respeito com os trabalhadores de saúde do Haiti. Além disso, reafirmar a vontade de conhecer o povo haitiano, sua cultura, a saga revolucionária, inscrita no imaginário e no dia-a-dia da população, presente nas referências marcadas no tecido urbano, onde encontramos a cada passo os nomes de Toussaint e Dessalines, Petion e Henri-Cristhophe, Ti Noel e Macandal. A figura lendária de Macandal é a de um escravo que liderou uma das primeiras insurreições no Haiti. Profundo conhecedor de ervas e plantas, ele organizou uma série de ações de revolta em que envenenava a população branca. Foi morto na fogueira, mas permanece vivo como herói popular, cantado no folclore e nos rituais de vodu.

Macandal, aquele que podia transformar-se em animal de cascos, ave, peixe ou inseto. De metamorfose em metamorfose, o maneta estava em toda a parte; tinha recuperado sua integridade pessoal sob a vestimenta dos animais. Todos sabiam que o lagarto verde, a mariposa noturna, o cachorro desconhecido e o incrível pelicano não eram senão simples disfarces. Com asas um dia, guelras no outro, galopando ou rastejando, era dono dos rios subterrâneos, das cavernas da costa, das copas das árvores e reinava agora em toda ilha (CARPENTIER, 1997 p. 22).

Ao contar outra vez a mítica história da rebelião negra por meio do filme Queimada, queríamos, de certa forma, falar dos fatos extraordinários que aconteceram na ilha de Santo Domingo durante a guerra da independência e descritos metaforicamente nas imagens do filme. Em suma, queríamos deixar aflorar o maravilhoso e fazer coro a Carpentier (1985), quando indaga “Mas o que é a história da América senão toda uma crônica da realidade maravilhosa?”

Retornando ao filme, Marlon Brando interpreta o agente inglês Walker, enviado da Inglaterra para fomentar uma revolução, oferecendo aos escravos o apoio financeiro dos ingleses, que pretendiam tomar o controle da colônia e a posse das imensas riquezas produzidas pela ilha açucareira. O objetivo de Walker é contatar o líder insurgente, mas quando chega na ilha, o líder negro já havia sido preso e executado. Nesse momento conhece o escravo José Dolores, um dos poucos negros da ilha que fala inglês e que se oferece para carregar suas malas. Convencido de que este pode substituir o líder desaparecido, aproxima-se dele. Walker envolve José Dolores em uma armadilha demagógica e oculta os interesses colonialistas dos ingleses, fazendo o escravo crer que ele defende a liberdade da população negra.

Nas alusões fílmicas às revoltas escravas que ocorreram nas Antilhas, em alguns momentos há menção explícita da revolução no Haiti e da figura libertária de Toussaintl’Ouverture, o hábil estrategista que afirmou: “C’est chez nous que règne le véritable droit de l’homme” (1979).

Alguns críticos consideram anacrônico o filme de Pontecorvo, afirmando que ele se sustenta em uma dicotomia maniqueista entre colonizador/colonizado; vítimas/algozes, senhores e escravos. Porém, o chamado maniqueísmo, no nosso ponto de vista não parece distante da dialética do Senhor e do Escravo, em tempos de neoliberalismo. Retomamos a ideia do texto hegeliano no sentido de que na relação entre dois homens no contexto de servidão somente há possibilidade de liberdade para o escravo, através da consciência e da revolução, enquanto que para o senhor não há saída, ele permanece aprisionado na armadilha do poder (SILVA, 2012a).

Outra restrição ao filme seria a ideia de conscientização oriunda das ideologias revolucionárias dos anos sessenta. O filme retrata o pensamento político da época, quando a opção pela guerrilha e a revolução cubana estavam muito presentes.

O diálogo entre Dolores preso e o soldado que o acompanha é exemplar: “Pode ser que eles o libertem, general”, diz o soldado. “Se eles quiserem me libertar, eu prefiro morrer. Liberdade a gente não ganha, a gente conquista, entendeu?”, “Não”, responde o soldado. “Um dia você vai entender, porque já começou a pensar”, conclui dialeticamente o General Dolores. Pontecorvo apresenta a passagem da consciência ingênua do revolucionário Dolores, que vai paulatinamente desvendando o mecanismo da opressão/submissão da sociedade escravocrata, para chegar à consciência crítica. Nesse sentido, mostra-se fiel aos pressupostos marxistas, em que “não é a uma consciência abstrata dos homens que determina o que eles serão, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”.

Podemos fazer uma analogia entre o processo de passagem de consciência ingênua chegando à consciência crítica, sofrido pelo revolucionário Dolores durante o filme, e o processo relatado por Freire (1996) a partir de sua experiência político-pedagógica com camponeses, a curiosidade desses diante da violência das injustiças sofridas no seu cotidiano, pois trata-se da mesma curiosidade, enquanto exercício de alteridade frente ao outro, o "não-eu", com que os cientistas e filósofos acadêmicos contemplam o mundo. A superação da ingenuidade do camponês, ocorre no processo de se tornarem epistemologicamente curiosos.

O dispositivo pedagógico proposto neste curso pretende através da problematização e de recursos como o fílmico, atuar como um catalisador desse permanente processo de transformação da curiosidade ingênua para a aprendizagem crítica e problematizadora ou curiosidade epistemológica.

Não se trata obviamente de impor à população espoliada e sofrida que se rebele, que se mobilize, que se organize para defender-se, para mudar o mundo. Trata-se, na verdade - não importa se trabalhamos com alfabetização, com saúde, com evangelização ou com todas elas -, de, simultaneamente com o trabalho específico de cada um desses campos, desafiar os grupos populares para que percebam, em termos críticos, a violência e a profunda injustiça que caracterizam sua situação concreta. Mais ainda, que sua situação concreta não é destino certo ou vontade de Deus, mas sim uma situação que pode ser mudada (FREIRE, 1996).

Outro ponto alto do filme refere-se ao realismo das cenas externas, o quadro da vida da população escrava, as casas precárias de pau-a-pique, a falta de água, as condições insalubres dos vilarejos, a precariedade da alimentação, o trabalho estafante na plantação e na produção do açúcar. A manutenção da escravidão pelos donos de engenho se baseava em castigos brutais e tinha um nível de perseguição implacável. As punições das chibatas eram comuns, mutilavam-lhes membros, orelhas e genitais; amarravam-lhes grilhões e blocos de madeira; prendiam-nos a postes fincados no chão (MILANI, 2012). O realismo das cenas se contrapõem aoglamour de certas reconstituições históricas em que a população escrava aparece bem vestida e alimentada em relações amistosas com os colonizadores.

Vitoriosa a rebelião, proclamada a independência, José Dolores abandona as montanhas e se dirige ao litoral, acompanhado dos milhares de negros que já o seguiam, numa das mais belas cenas do filme. Seu exército marcha ao som da espetacular composição de Ennio Morricone, uma espécie de ópera rock que lembra o filme Hair, onde as vozes repetem insistentemente a palavra ‘abolição’. Uma espécie de canto, de hino à liberdade, à vitória sobre todas as opressões, uma das mais generosas utopias daqueles anos sessenta, expressa pelo filme de Potencorvo (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2012).

Enfim, a exibição deste filme no contexto de um curso de epidemiologia, convoca o grupo para pensar em saúde/doença/atenção à saúde sem descuidar da reflexão histórica e da crítica social.

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. Utopias queimadas. Disponível em: <http://www.cchla.ufrn.br/ppgh/docentes/durval/artigos/utopias_queimadas.pdf >.Acesso em: 24 jul. 2012.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Caderno de Educação Popular. Brasília, DF, 2007. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/caderno_de_educacao_popular_e_saude.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2012.

BREILH, J. Epidemiologia crítica. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2006.

CARPENTIER, A. O reino deste mundo. Rio de Janeiro: Editora Record, 1985.

LOUVERTURE, T. De l’esclavage au pouvoir. Port-au-Prince : Edition de l’École, 1979.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Terra e Paz, 1996.

MILANI, A. A revolução negra. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/revolucao_negra_7.html >. Acesso jul. 2012.

PLANTINGA, C. R . Rethoric and Representatiton in Nonfiction film. Cambridge, U.K.; New York, N.Y.: Cambridge University Press, 1997.

PROJETO de Cooperação Internacional Tripartite Brasil, Haiti e Cuba. Disponível em: <http://cooperacaotripartitehaiti.tumblr.com/>. Acesso em: 24 jul. 2012.

SILVA, R. G. A. A dialética do senhor e do escravo no contexto da consciência de si e do mundo do trabalho. Disponível em: <http://www.slideshare.net/ricardogeo11/a-dialtica-do-senhor-e-do-escravo-no-contexto-da-conscincia-de-si-e-o-mundo-do-trabalho-anlise-da-alienao>. Acesso jul. 2012a.

SILVA, T. F. Independência do Haiti. Disponível em: <http://www.infoescola.com/historia/independencia-do-haiti/>. Acesso em: 24 jul. 2012b.



http://www.reciis.cict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/viewArticle/623/1092

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